Ninguém desperta com flores.
Quem te disse isso estava a vender incenso.
O despertar começa como um tropeço interno.
Algo não encaixa.
O mundo continua igual, mas tu já não cabes nele da mesma forma.
O trabalho soa oco.
As conversas repetem-se como um disco riscado.
As certezas que herdaste começam a apodrecer por dentro.
Isso não é depressão.
É lucidez a nascer — e dói.
Despertar não é ver cores novas.
É perceber que vivias num quarto mal iluminado
e que a claridade revela a poeira que sempre esteve ali.
A verdade inconveniente:
muita gente diz que quer despertar,
mas ninguém quer pagar o preço.
Porque o preço é alto:
– perder pertenças falsas
– decepcionar expectativas alheias
– admitir que repetiste padrões como um papagaio bem-educado
– aceitar que nem tudo o que aprendeste te serve
Despertar é perceber que o “livre arbítrio”
muitas vezes é só uma rota decorada.
Escolhas feitas por medo, hábito ou aprovação
não são escolhas — são reflexos.
E aqui vai a parte que poucos dizem:
não há garantia de felicidade.
Há, sim, coerência interna.
E isso assusta mais do que a tristeza.
Quem desperta fica mais silencioso.
Não porque sabe tudo,
mas porque já não consegue mentir com entusiasmo.
O desperto não se sente superior.
Sente-se responsável.
Porque agora vê.
E quem vê não consegue fingir cegueira sem adoecer.
Se este texto te incomodou, ótimo.
Não foi escrito para acalmar.
Foi escrito para provocar aquela pergunta que evitas:
Em que área da tua vida estás apenas a repetir, em vez de escolher?
Não respondas agora.
Deixa a pergunta trabalhar em ti.
O despertar não acontece num clique.
Acontece em rachaduras.
E uma vez rachado…
nunca mais se volta a caber inteiro na mentira.

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